Muitos anos já se passaram desde a nossa última conversa/e-mail. Muitas coisas já aconteceram na minha vida, nas minhas vidas. Você já não é mais o único homem pra mim, pelo menos não na minha cama. Mas, olha só que estranho, é o único no meu coração ou na parte do meu cérebro responsável pelo “amor eterno”.
É incrível como eu sempre acabo procurando você. Mas, ninguém é você, ninguém tem os seus defeitos, ninguém me conforta como você fazia, ninguém tem o cheiro do teu cabelo,...
Bom, não foi pra dizer isso que estou te escrevendo, e sim porque sinto uma necessidade absurda de te contar de mim, dizer que cresci, que não choro mais quando escuto Beethoven, que já posso olhar pro seu quadro e que agora ele ocupa um lugar privilegiado na minha casa. Até faço questão de falar pros meus amigos que eu ganhei ele de um escritor famoso, e que foi criado 2 décadas antes de parar em minhas mãos.
Tenho uma filha. Ela se chamaria Marina, se fosse sua, pra lembrar do nosso mar, mas como não é, a chamei de Elisa, porque ela é a minha luz.
Tenho um bom emprego e gosto do que faço. Já terminei minha pós-graduação, mas resolvi não seguir a carreira acadêmica. Preferi continuar meu caso de amor com a literatura a ter um casamento fracassado com a burocracia da sala de aula.
Já fui casada, com direito a igreja e vestido de noiva, mas não durou muito tempo. Ele é mais um que não era você. A única coisa boa que ele me deixou foi Elisa, ela é tão linda... fico lembrando de sua filha, ela já é uma mulher hoje, deve ter uma família. E você... por onde anda o meu amor?!!!
Será que você se mudou, voltou pra sua terra ou continua na cidade de porto sem mar? Será que você ainda ama a literatura? Será que você ainda me ama? Será que algum dia me amou? Será que ao menos “ainda pensa em mim”?
São tantos “serás”, provavelmente sem respostas, como os meus e-mails, quando eu ainda te mandava e-mails.
Hoje não tenho mais raiva de você, nem mágoa, não sinto mais aquela dor quando penso no quanto você me decepcionou. Só sinto esse vazio que vem e vai, um vazio da palavra que falta, um vazio da lágrima que não cai, um vazio do frio que fica no lado intocado da cama, um vazio do rio que corre de não sei quem pra não sei onde, um vazio do eu que quer ser outro que não seja você.
p.s.: menti, ainda choro quando escuto Beethoven.
Rio de Janeiro
Hoje é 23 do 3
Como vão as coisas
De mês em mês
Eu me sento pra escrever pra você
Eu reformei a casa
Você não soube disso
Nem das outras coisas
Sabe eu tive um filho
Faz tempo que eu me perdi de você
Guardo pra te dar
as cartas que eu não mando
Conto por contar
Eu deixo em algum canto
Eu vi alguns amigos
Tropeçando pela vida
Andei por tantas ruas
São estórias esquecidas
Que um dia eu quis contar pra você
Eu fico imaginando
Sua casa e seus amigos
Com quem você se deita
Quem te dá abrigo
Eu me lembro que eu já contei com você
Guardo pra te dar
as cartas que eu não mando
Conto por contar
Eu deixo em algum canto
E as pilhas de envelopes
Já não cabem nos armários
Vão tomando meu espaço
Fazem montes pela sala
E hoje são a minha cama
Minha mesa, meus lençóis
E eu me visto de saudades
Do que já não somos nós
Guardo pra te dar
as cartas que eu não mando
Conto por contar
Eu deixo em algum canto (Leoni)
Escrito por katy às 20:47