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Eu deixo de fazer algumas coisas hoje, pra fazer amanhã. Por exemplo: não corrigi a prova dos meus alunos hoje, porque estava com preguiça e amanhã vou poder fazer isso. Não assisti a um DVD que quero ver, porque vai passar um filme na TV, que também quero ver. Não terminei de ler Martha Medeiros porque quero guardar as últimas páginas pra quando estiver no ônibus, indo para o trabalho. Com a morte da minha amiga, fiquei pensando em até quando eu vou ter um amanhã. Até quando eu posso esperar pra dizer eu te amo, te perdoo, me perdoa, sinto muito, vai embora, não dá mais,... Até quando eu posso esperar? Esperei demais para o meu primeiro beijo, devia ter beijado antes, outros garotos, mas naquela época, sei lá,... Quando finalmente aconteceu, não foi como eu esperava, tanta expectativa e nem senti as borboletas no estômago. Com a minha primeira vez foi diferente, tempo certo, pessoa certa. Queria trabalhar com fotografia e aprender a tocar piano e violino. Sempre falo que vou fazer isso quando me aposentar, mas agora fico pensando se posso esperar ou se deveria jogar tudo para o alto agora, colocar uma mochila nas costas e sair por aí tirando fotos. Até quando eu devo esperar pra responder aquele e-mail, ou para retornar aquele telefonema? Será que amanhã vou mesmo conseguir corrigir as provas ou terminar o livro, ou ver o filme? A Marília foi enterrada hoje. Não deu tempo. O último segundo badalou e a gente nem percebeu que tinha acabado, que a vida tinha acabado. Eu fico imaginando se ela teve tempo de pensar em alguma coisa, antes do carro chegar e levar tudo embora. Aquele segundo final em que a gente pensa que deixou o fogo aceso ou que não deu a comida do cachorro. Aquela fração de segundos em que você é você pela última vez, antes de se tornar só lembranças e um espaço no chão, com direito a flores uma vez ao ano. Talvez não tenha dado tempo, e ela simplesmente foi. É melhor assim, não dá pra se arrepender. Eu sigo me arrependendo, até amanhã, até não ter amanhã ou até criar coragem pra resolver coisas que ficaram pelo caminho, antes que soe a minha última badalada.
Escrito por katy às 20:49 []
o amanhã pode não chegar
Há um tempo combinei com a minha amiga que faríamos testamentos e deixaríamos uma com a outra. Assim, quando uma de nós morresse, poderíamos descansar em paz, porque a outra cuidaria de tudo que não foi resolvido em vida. Também seríamos tutoras uma dos filhos da outra, filhos humanos e bichos. Só que esse testamento nunca saiu da nossa cabeça. A gente sempre fala que vai escrever, mas nunca escreve, sempre tem o amanhã. Hoje, essa mesma amiga me ligou pra dizer que, na noite passada, uma amiga nossa foi atropelada e morreu. Ela tinha a nossa idade, era formada em matemática e estava fazendo especialização. Casou-se há pouco tempo com o amor da vida dela e estava muito bem. Daqui a uns anos viriam os filhos, o emprego dos sonhos e o conto de fadas estaria completo. Eu lembro de quando conheci a Marília. Nós estudávamos na mesma universidade, só que eu fiz português e ela matemática. Isso não impediu que nos déssemos bem. Ela era de outra cidade e eu também. Ela tinha um namorado que a família não aceitava, e eu também. Ela passou a graduação inteira namorando, sem namorar. Eles se esperaram. Eu não. Depois que nos formamos eu comecei a trabalhar, foquei na minha vida profissional. Ela finalmente conseguiu a aprovação da família e se casou, com o amor da vida dela, depois de quase 5 anos de espera. Eu não preciso dizer o quanto estou triste. Mas também estou feliz, porque sei que ela aproveitou a vida aqui. Ela viveu o que muitas pessoas não vivem numa vida inteira. Ela amou, foi amada, estudou, começou uma família, realizou sonhos, fez planos,... Ainda não sei bem como aconteceu, parece que foi um “pega” de carros, outros dizem que ela desceu do ônibus e um carro passou por cima dela. Não importa como aconteceu. Só aconteceu. E agora? O que o marido dela vai fazer? O que os pais dela vão fazer? Ela não teve filhos, esse sonho ela não realizou. O que a gente faz quando um pedaço da gente é arrancado? Eu não sei. O enterro é amanhã, eu não vou estar lá. Mas, ela está em todo lugar agora. Ma, vê se não fica querendo ensinar matemática para os anjos, que é muito chato!!!!! Dá uma olhada na gente aqui embaixo. Aproveita pra pegar sol nas nuvens, porque você estava muito branca. Não se preocupe com nada, a gente vai ficar bem.
p.s.: vou ali escrever meu testamento, porque o amanhã pode não chegar.
Escrito por katy às 18:13 []
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